Jogabilidade e design
O que mais chama a atenção em Final Fantasy II é a ausência de experiência e níveis tradicionais. O desenvolvimento dos personagens depende totalmente de como você os usa em batalha. Por exemplo, se você ataca com espada, a Força aumenta; se apanha muito, a Vitalidade cresce; se usa magia com frequência, a Inteligência sobe. Esse design era bem à frente do seu tempo na época, e no portátil acabou parecendo algo novo. Em vez de acumular pontos passivamente, o jogador precisa pensar ativamente em como moldar seus heróis, e cada combate vira uma espécie de treinamento personalizado.
No entanto, esse sistema de crescimento também deu origem a um estilo de jogo inesperado: o grind de atributos. Como usar repetidamente uma ação aumenta o atributo correspondente, muitos jogadores faziam os personagens atacarem uns aos outros ou lançarem magias no ar para ficarem mais fortes rapidamente. Isso virou uma memória compartilhada entre os fãs da época, quase uma 'trapaça' aceita. A Square nunca incentivou essa prática, mas os jogadores adoravam, e isso deixou uma marca forte na comunidade.
Outra característica marcante é o sistema de 'palavras-chave'. Ao conversar com NPCs, você pode memorizar certas palavras mencionadas e usá-las em outras conversas, muitas vezes revelando novas pistas. Isso torna a progressão da história menos linear, mais parecida com montar um quebra-cabeça de informações. No portátil, a interface é bem prática: você abre o menu de memórias, consulta as palavras e decide com quem falar. Essa interação faz com que a narrativa não seja apenas assistida, mas explorada ativamente pelo jogador.
Este título também introduziu dois elementos que virariam ícones da série: os Chocobos e Cid. Os Chocobos servem como montarias, facilitando a locomoção no mapa-múndi e economizando tempo. Nas batalhas, a equipe pode ter até quatro personagens, mas também pode ter menos, o que era uma flexibilidade interessante para a época. A tela de batalha mostra diretamente os PVs dos personagens, permitindo que o jogador veja a situação de relance, sem precisar abrir menus extras – algo muito útil na telinha do portátil.
No geral, a essência da jogabilidade desta versão para WonderSwan Color é proporcionar uma experiência de crescimento e narrativa totalmente diferente dos RPGs tradicionais, sem simplificar o sistema para se adaptar ao portátil. Pelo contrário, os mecanismos únicos foram preservados integralmente. Para quem está conhecendo a série agora, pode parecer um pouco estranho no começo, mas é exatamente essa originalidade que garante a Final Fantasy II um lugar especial na franquia.
Contexto e lançamento
Final Fantasy II para WonderSwan Color foi lançado em 3 de maio de 2001 no Japão, como parte de uma parceria entre a Square e a Bandai para levar os três primeiros jogos da série ao portátil. Esta versão é um remake do original de Famicom, com gráficos atualizados, e foi exclusiva do WonderSwan Color. Na época, a Square também lançou um console especial em bundle com o jogo, um atrativo e tanto para colecionadores.
Na história dos remakes de Final Fantasy II, esta versão ocupa um lugar especial. Ela fica entre o original de Famicom e o lançamento posterior para PlayStation, sendo a única nova versão em 2001. O remake para PlayStation só saiu em 2002, também desenvolvido pela Kan Navi. Ou seja, a versão WonderSwan Color serviu como uma ponte entre o clássico original e as versões mais difundidas, permitindo que os jogadores experimentassem essa obra-prima pela primeira vez em um portátil.
No entanto, esta versão não foi lançada no Ocidente, ficando restrita ao mercado japonês. Na verdade, a Square chegou a planejar uma localização para a América do Norte, com o título provisório 'Final Fantasy II: Dark Shadow Over Palakia', mas o projeto foi cancelado. Como resultado, os jogadores norte-americanos acabaram recebendo Final Fantasy IV como 'Final Fantasy II', o que gerou muita confusão sobre a numeração da série.
O lançamento no WonderSwan Color reflete a importância que a Square dava ao mercado de portáteis na época. O WonderSwan Color era um portátil da Bandai, popular no Japão, mas com alcance global limitado. A Square escolheu essa plataforma para o remake tanto para atender aos fãs japoneses quanto para expandir o mercado de RPGs portáteis. Porém, devido às limitações da plataforma, o impacto desta versão ficou praticamente restrito ao Japão.
Na trajetória da série, a versão WonderSwan Color é um marco importante nos remakes de Final Fantasy II. Ela preserva a essência do original e prepara o terreno para o remake de PlayStation. Embora não tenha saído no Ocidente, para os jogadores japoneses ela é uma lembrança marcante dos tempos de portátil. Para quem estuda a história da série, esta versão é uma peça que não pode ser ignorada.
Desenvolvimento
O desenvolvimento da versão WonderSwan Color ficou a cargo da Kan Navi, uma empresa especializada em ports e remakes. A música foi rearranjada por Tsuyoshi Sekito, que mais tarde trabalharia em outras trilhas de Final Fantasy. A equipe era pequena, com cerca de dez pessoas, mas os principais membros eram veteranos da série, incluindo Hironobu Sakaguchi e Akitoshi Kawazu. Embora não programassem diretamente, eles deram muita orientação para o projeto.
O processo de desenvolvimento desta versão tem uma história curiosa. Durante o desenvolvimento do Famicom original, um dos programadores, Nasir Gebelli, teve que voltar para os Estados Unidos por causa do visto. Para terminar o jogo, a equipe inteira o acompanhou e continuou trabalhando por lá. Essa experiência de desenvolvimento internacional era rara na época e mostra como o trabalho era improvisado e como a equipe era unida.
Sobre os Chocobos, o designer foi Koichi Ishii. Ele criou galinhas quando criança e sempre teve um carinho especial por aves; a inspiração veio dos seus animais de estimação. Inicialmente, Ishii imaginou os Chocobos como companheiros permanentes, mas Sakaguchi sugeriu que fossem montarias, e assim ficou. Essa mudança se mostrou um sucesso, e os Chocobos se tornaram um dos mascotes mais queridos da série.
Outra história interessante envolve os Moogles. Eles também foram criados por Ishii, mas acabaram cortados porque não havia espaço na história. No entanto, seus sprites não foram desperdiçados: foram reaproveitados para criar outros inimigos. Então, alguns monstros que você encontra no jogo carregam um pouco da essência dos Moogles. Esse tipo de 'reciclagem' era comum no desenvolvimento de jogos na época.
Durante o desenvolvimento, a equipe enfrentou vários problemas. Como ficavam adicionando novos monstros sem parar, a versão principal nunca ficava pronta, e houve até brigas internas por causa disso. Mas, no fim, tudo foi superado. Embora seja um port, a versão WonderSwan Color trouxe melhorias gráficas e sonoras, permitindo que os veteranos sentissem o charme do original no portátil.
Recepção e legado
Após o lançamento, a versão WonderSwan Color recebeu uma nota 30/40 da revista japonesa Famitsu. Na época, essa nota era considerada mediana, nem empolgante nem decepcionante. Para um port de portátil, era uma avaliação razoável. Os jogadores elogiaram principalmente os gráficos e a música, dizendo que o remake ficou bom, mas o sistema em si continuava o mesmo, sem grandes surpresas.
Embora não haja dados de vendas específicos para esta versão, até março de 2003, incluindo todos os remakes, Final Fantasy II havia vendido 1,28 milhão de cópias no mundo todo. Esse número não é altíssimo, mas para um remake de um jogo antigo é um resultado bem razoável. A versão WonderSwan Color contribuiu para esse total.
O sistema de crescimento desta versão teve um impacto duradouro na série. Como os jogadores podiam ficar mais fortes rapidamente através de grind, alguns achavam divertido, mas outros achavam que desequilibrava o jogo. Por causa das críticas, a sequência Final Fantasy III voltou ao sistema tradicional de experiência. Já Akitoshi Kawazu levou esse sistema de crescimento para a série SaGa, onde continuou a evoluir. Ou seja, apesar das controvérsias, esse sistema encontrou um novo lar e sobreviveu.
A versão WonderSwan Color desempenhou um papel de transição na história dos remakes de Final Fantasy II. Ela permitiu que os jogadores experimentassem o clássico no portátil e serviu de base para o remake de PlayStation. Embora não tenha sido lançada no Ocidente, para os fãs japoneses ela é uma lembrança querida dos tempos de portátil. Para quem estuda a série, essa versão é uma parte essencial da história.
Em resumo, a versão WonderSwan Color é um port fiel ao original, sem grandes mudanças no conteúdo, focando em melhorar gráficos e música. Para os fãs de Final Fantasy II, ela oferece uma oportunidade de reviver o clássico no portátil. Embora não tenha causado um grande alvoroço, seu lugar na história da série é insubstituível.







